Croquis

CROQUIS – Croqui é esboço ou rascunho. Desenho do qual não se exige precisão, refinamento ou mesmo cuidado com sua preservação. Aqui croquis será um espaço para conversas.

Croquis – 02

EZEQUIEL POESIA-LAMENTAÇÕES, SUSPIROS E AIS: UM LIVRO CAMINHANTE 

Ezequiel: poesia, lamentações, suspiros e ais é meu segundo livro publicado. Agradeço demais à existência da Editora PANTIM Coletivo. Taise Dourado pegou Ezequiel tímido e o vestiu, diagramou para vida; foi com muita paciência e compreensão que me auxiliou nas dezenas de alterações estéticas que fui reelaborando para o livro a cada prova. A PANTIM realiza o trabalho de edição com curadoria autoral. Maria Fernanda e Ana Verena nos apoiaram para a estreia desse livro.

foto ezequiel

Essa semana estarei em Brasília participando da programação da Dente Feira de Impressos – evento que reúne várias pequenas editoras do país e tem uma premiação para zines e quadrinhos e esse ano também para livros de poesia. Ezequiel é finalista do Prêmio Dente de Ouro na categoria poesia.  Para nós da PANTIM Coletivo, figurar nessa lista de finalistas é o nosso prêmio. Temos um objetivo pontual com esse livro: queremos que ele se espalhe como mato teimoso.

Nosso país vive um momento de forte depressão e pensamos que a palavra poderá nos salvar. E escrevo “salvar” pensando em equilíbrio. E tudo para se equilibrar, primeiro balança. Então Ezequiel é um livro que balança: dores, opressões, machismo, crenças pessoais de decadência, lugares de poder – deus, homem, autoria, binariedades. Se salvação é (des)equilibrar, palavra é carinho, vento fresco, mão amiga. Espalhar Ezequiel como mato teimoso é oferecer uma opção para leitoras e leitores que.

Ezequiel é um livro que quer ouvir anjos caídos. Nos poemas desse livro deus são todas as palavras de solidão e abandono e o falo (representação masculina de binariedade) apresenta-se como um contra-desejo de existência.  Nesse jogo de desmonte, eu, Luciany Aparecida, sou uma autoria em deslize e Margô Paraíso, uma escritora apresentada depois de morta. Assim, esse livro quer se equilibrar pela desestruturação das marcações binárias de gênero e autoria.

Ezequiel é vivo e caminha rasgando e colando palavras.

O livro está a venda no site da PANTIM, você pode comprar o seu no link: https://pantim.art.br/livros

 

Croquis – 01 

CONTOS ORDINÁRIOS DE MELANCOLIA: UM LIVRO TRISTE

imagem 1

Medeia aponta a metralhadora para a plateia.
Breu. Tiros ensurdecedores de metralhadora.
Mata teu pai
Grace Passô

Eu era a carne/Agora eu sou a própria navalha
Negro Drama
Racionais Mc’s

Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, (…) O gatilho cedeu,
toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo
seco e ensurdecedor, que tudo principiou.
O estrangeiro
Albert Camus

Hoje, 03/10/2017, fazem exatos 15 dias que participei, no evento VIII Seminário Internacional e XVII Seminário Nacional Mulher e Literatura – transgressões, descentramentos, subversão, da mesa “Conversas com escritoras contemporâneas” em companhia das escritoras Natália Borges Polesso, Ana Luísa Amaral e Manuela Lunati com mediação da professora da UFBA Mônica Menezes.

Nessa mesa fiz a leitura do conto “Para Antônio” do livro “Contos ordinários de melancolia” assinado por Ruth Ducaso. O conto trata-se de um relato de uma mãe que tortura e mata o filho.

Da mesa enquanto lia, pausadamente, podia observar as reações/sons dos presentes. Como o conto se propõe, as feições dos ouvintes retorciam-se, assustavam-se, surpreendiam-se e até mesmo esconjuravam aquela ausculta.

As reações após a leitura foram diversas.

Agradeço a atenção das escritoras e mediadora para comigo no após leitura. Agradeço imensamente as mulheres/pesquisadoras que vieram, logo após a mesa, conversar sobre os enfrentamentos e necessidades de temas “indigestos” para propostas de outros lugares do feminino. As que me mandaram mensagens inbox compartilhando emoções desencadeadas a partir do conto. As que me procuraram no dia seguinte na universidade para contar da sequência de suas reações ao seguirem para casa lendo o livro no ônibus. Agradeço a todas. Mas, aqui, nesse texto, desejo falar das reações assustadas, dos comentários, falas e inboxs incomodados com o que li/escrevo, que recebi no após a leitura do conto “Para Antônio”.

Num momento de golpes, censuras e violências, qual estamos vivendo em nosso país, penso como indispensável me colocar em diálogo com falas que me disseram do incômodo em ouvir/ler uma literatura com aquele grau de “horror”. Recebi mensagens de pessoas me questionando sobre como eu podia escrever aqueles horrores, enredos tão terríveis. Por acaso eu já havia feito aquilo? Nem considerei questionar que aquela pessoa me perguntava se eu havia torturado alguma criança, nem quis entrar em questão de que nunca havia se quer tido um filho. “Por que você fala contra a mãe, contra a mulher, contra a família?”, me perguntou uma jovem que me abordou no campus da universidade no dia seguinte, “Eu sou mulher. Eu fiquei triste. Muito triste. Para que escrever uma coisa triste dessas? Eu quero ser mãe”, ela seguia. Ainda, sentamos, tentei alguma fala.

A pessoa se foi e eu fiquei pensando. Chegavam mais mensagens e em alguma medida fiquei assustada. Passei a ponderar que as falas, mesmo as que vinham no sentido de elogios, diziam de uma imensa tristeza que o texto lhes provocara. A tristeza foi o que se repetia.

Eu pensava, em começo, talvez até em ação de defesa: – mas a literatura não pode ser triste? Mas a literatura não pode causar “horror”? A literatura não pode falar do terrível? Eu tenho que ter praticado o “terrível” para escrever sobre o “terrível”?

O que era aquilo? O que estava acontecendo?

Eu sabia que esses temas (mães que torturam filhos, mulheres que matam) são horríveis, sabia tanto que nomeei o livro com o título “Contos ordinários de melancolia”. O ordinário na dupla intensão de: a) ironizar com os tamanhos dos contos que são propositalmente pequenos (ordinários) e indigestos (no sentido de gênero e de tema) e b) no sentido de escrever sobre questões que ordinariamente e melancolicamente se repetem em nossa sociedade.

Escrevi um livro de contos tão ordinário, que, como muitos têm dito, nem contos parecem ser. Abri o livro com uma primeira sessão (mata ciliar) que é o gênero narrativo em flerte com a poesia. Quem sabe, talvez, tenha feito assim como um procedimento experimental de descanso e de descaso com aqueles “contos”. Para aguentar.

Eu não escrevo literatura para agradar ninguém. Eu não escrevo para fazer amigos. Fazer amizade a partir do que escrevo, o que tem acontecido e o que acontece com qualquer pessoa, é um garboso lucro. E trago essa ponderação, tão corriqueira, até esse texto, para argumentar que o que me assustou e assusta nessas inquietações de alguns ouvintes e ou pré-leitores e ou leitores de meu texto não são medos da incompreensão literária, mas, o susto com os sustos das temáticas.

Claro, que ao mesmo tempo, guardo aquele frescor em pensar: hum, olha, está vendo que esses são temas necessários.

No entanto, é com tristeza,  que afirmo, que sei, que não estou escrevendo novidade alguma. Nenhum desses horrores são novidade para nenhuma família. As violências estão aí. São estatísticas.  Eu, nesse livro, apenas faço a opção de colocá-las ao sol para fritar, arder. “Contos ordinários de melancolia” de modo algum têm como proposta guardar ferida dentro de casa. Ao contrário, quero é falar para rua.

Um dia ouvi num programa de TV um familiar que abusava sexualmente de uma criança de cinco anos dizer: “é isso mesmo que elas querem (…) ela passava por minha frente com essa sainha curta me tentando”.  Nos “Contos ordinários” escrevi o conto “O que os machos querem” um conto de uma voz explicando com quais procedimentos “mata” homens duas vezes por semana, ao final ela diz “É isso que eles querem quando desfilam em minha frente (…) Dou-lhes prazer. É isso mesmo que eles querem”.

Pela “naturalidade” com a qual um homem faz um comentário desses num programa de TV e/ou a “naturalidade” com a qual um programa de TV transmite uma fala dessa me desloca a considerar que o incômodo, o xiado que a leitura do conto “Para Antônio” provocou não está na temática que ele aborda, não me parece ali que o problema seja a descrição da violência, mas o modo como a voz narrativa diz da prática dessa violência. Parece que os ouvidos acostumaram-se a voz masculina como a que pode violar. Os “contos ordinários de melancolia” tem uma voz-mulher, e, ainda multiplicada no feminino posto que na assinatura autoral sou também e ainda Ruth Ducaso. E na cena de leitura do texto, sou mais uma mulher viva.

Se a temática dos “ordinários” não são novidades na sociedade. Tão pouco são o uso da violência e do terrível na literatura. O que eu posso pensar? Que a violência é possível quando a autoria é masculina ou quando a sugestão do agressor é o homem? Não apenas, pois a própria literatura contemporânea brasileira me aponta que não, posto que temos escritoras contemporâneas que lidam com a “violência”. Será, então só, o dedo das narrativas dos “ordinários” estarem nas famílias? Nas mulheres? Nas mães? É estranho, mas parece que contemporâneo agora é reservar às mulheres apenas os lugares e as discussões acerca do recato e do lar. E a violência feminina, cadê? E a violência das mães em face a uma sociedade agressora como a nossa, cadê? Ou quer é manter-se a versão de santa recatada e do lar e seguir enfiando “bombas de gasolina” na imagem da presidenta, afastada por golpe, Dilma Rousseff? Ou quer manter-se a ama de leite como a ninadora dos senhores?

Eu sei, que eu não.  Eu quero é ouvir a voz dessa mulher enfurecida me contar sobre seu ódio por aquela criança que ela teve/tem que amamentar/cuidar enquanto o seu filho foi vendido, enquanto o seu filho mais novo está sob os cuidados da filha mais velha – que não queria estar cuidando do irmão mais novo -, enquanto seu filho está no trabalho, enquanto seu filho nem está mais vivo. Eu quero ouvir a voz de uma mulher rural me dizer que nunca quis ter nenhum daqueles tantos filhos. Eu quero ouvir essas tantas mulheres falarem de violências.

E, é isso, eu sinto muito, mas não tem mesmo como não ficar triste.

No dia seguinte àquela leitura de “Para Antônio” eu fiquei lá, igualmente ordinária e melancólica.

Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.

Cemitério dos vivos

Lima Barreto